Os resultados da primeira edição da Prova Nacional Docente (PND), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), acenderam um alerta sobre a qualidade da formação de professores no Brasil. A avaliação, criada para medir o desempenho de estudantes e profissionais formados em cursos de Licenciatura, revelou que apenas 24,2% dos participantes atingiram o nível considerado de atuação docente sólida e consistente.
Aplicada em 2025, a prova reuniu cerca de 760 mil participantes em todo o país. O exame faz parte do programa federal “Mais Professores para o Brasil” e foi criado com o objetivo de avaliar a qualidade da formação superior voltada ao magistério, além de auxiliar redes públicas de ensino na seleção de profissionais.
Segundo os dados divulgados, 65% dos participantes foram considerados proficientes, ou seja, atingiram pelo menos 50 pontos na escala de avaliação do Inep. No entanto, a maior parte desses candidatos ficou apenas no chamado “Padrão 1”, que representa um nível inicial de atuação docente.
Ao todo, 309.813 participantes, equivalente a 40,7% do total, atingiram esse patamar mínimo, caracterizado por profissionais que possuem condições básicas para planejar e avaliar atividades, mas ainda necessitam de orientação e supervisão pedagógica.
Já o “Padrão 2”, considerado o nível de atuação consistente e sólida, foi alcançado por apenas 183.983 participantes, o equivalente a 24,2% do total avaliado. Nesse nível, o profissional demonstra autonomia, domínio pedagógico e capacidade de aplicar metodologias e avaliações com fundamentação ética e educacional.
Por outro lado, aproximadamente 266 mil participantes não conseguiram atingir sequer o nível mínimo de proficiência, ficando abaixo de 50% da pontuação exigida.
Matemática apresenta pior desempenho
Entre as áreas avaliadas, Matemática registrou o pior índice de proficiência do país. Apenas 45,9% dos participantes da área alcançaram o desempenho mínimo esperado, enquanto 54,1% ficaram abaixo do nível considerado adequado.
Na sequência aparecem Artes, com 49,9% de proficientes, Letras (60,7%), Pedagogia (62,8%) e Educação Física (69,2%).
As melhores médias foram registradas em Ciências Humanas, que atingiu 80,2% de proficiência, seguida por Ciências, com 78,4%.
Especialistas apontam que os números reforçam dificuldades históricas na formação de professores em áreas consideradas estratégicas, principalmente Matemática e disciplinas ligadas ao raciocínio lógico.
Diferença entre EAD e ensino presencial chama atenção
Outro ponto que gerou preocupação foi o desempenho dos estudantes de cursos de Licenciatura na modalidade de Ensino a Distância (EAD).
De acordo com os dados divulgados pelo MEC, cerca de 53% dos concluintes de cursos EAD não atingiram nível satisfatório de proficiência.
Nos cursos presenciais, esse índice cai para 26%, praticamente metade do registrado na modalidade totalmente online.
O resultado reforçou discussões sobre a qualidade da formação docente oferecida em cursos à distância. Atualmente, o governo federal já iniciou o encerramento gradual de Licenciaturas 100% EAD.
As autoridades estudam novas regras para a modalidade, incluindo a exigência mínima de 50% da carga horária presencial e pelo menos 20% das aulas realizadas ao vivo por videoconferência.
Profissionais experientes tiveram desempenho melhor
A avaliação também mostrou diferenças significativas entre recém-formados e profissionais que já atuam na área da educação.
Entre os chamados participantes do “público geral”, composto principalmente por profissionais já formados e interessados em concursos públicos, o índice de proficiência chegou a 67,5%.
Já entre os estudantes concluintes das Licenciaturas, apenas 57,8% alcançaram o nível mínimo exigido. Isso significa que 42,2% dos futuros professores terminaram a graduação sem atingir o desempenho considerado adequado pelo Inep.
Para especialistas, os números sugerem que a experiência prática em sala de aula pode contribuir significativamente para o desenvolvimento das competências pedagógicas.
Prova poderá ser usada em concursos públicos
A Prova Nacional Docente também foi criada com a proposta de unificar e qualificar processos seletivos para contratação de professores no país.
Segundo o MEC, 1.530 redes de ensino aderiram voluntariamente à iniciativa, incluindo 22 estados, 18 capitais e outros 1.490 municípios.
O ministério estima que o Brasil tenha uma demanda anual de cerca de 118 mil novos professores, considerando aposentadorias, afastamentos e reposições.
Como aproximadamente 492 mil participantes atingiram o nível de proficiência, o governo avalia que o exame possui potencial para suprir a demanda nacional por docentes qualificados.
Novas áreas serão incluídas em 2026
Na primeira edição, a PND avaliou 17 licenciaturas. Em 2026, o número subirá para 21 cursos, com a inclusão das áreas de Teatro, Dança, Ciências Naturais e Letras-Espanhol.
A ampliação busca aumentar o alcance da avaliação e acompanhar a evolução da formação docente no país.
Apesar disso, os resultados da primeira edição já intensificaram o debate sobre a qualidade dos cursos superiores de Licenciatura, especialmente diante dos baixos índices registrados em áreas fundamentais para a educação básica.
Para especialistas em educação, os números revelam um efeito cascata preocupante: universidades com formação deficiente acabam colocando nas salas de aula profissionais que ainda não possuem domínio pleno dos conteúdos e das práticas pedagógicas necessárias.
Com informações do G1

