DestaqueEducação76% dos futuros professores não atingem nível considerado sólido em prova nacional e crise na formação docente preocupa especialistas

Avaliação nacional revela baixo desempenho em cursos de Licenciatura, diferença entre ensino presencial e EAD e alerta para impactos na educação brasileira
Reportagem22 de maio de 20269 min

Os resultados da primeira edição da Prova Nacional Docente (PND), divulgados pelo Ministério da Educação (MEC), acenderam um alerta sobre a qualidade da formação de professores no Brasil. A avaliação, criada para medir o desempenho de estudantes e profissionais formados em cursos de Licenciatura, revelou que apenas 24,2% dos participantes atingiram o nível considerado de atuação docente sólida e consistente.

Aplicada em 2025, a prova reuniu cerca de 760 mil participantes em todo o país. O exame faz parte do programa federal “Mais Professores para o Brasil” e foi criado com o objetivo de avaliar a qualidade da formação superior voltada ao magistério, além de auxiliar redes públicas de ensino na seleção de profissionais.

Segundo os dados divulgados, 65% dos participantes foram considerados proficientes, ou seja, atingiram pelo menos 50 pontos na escala de avaliação do Inep. No entanto, a maior parte desses candidatos ficou apenas no chamado “Padrão 1”, que representa um nível inicial de atuação docente.

Ao todo, 309.813 participantes, equivalente a 40,7% do total, atingiram esse patamar mínimo, caracterizado por profissionais que possuem condições básicas para planejar e avaliar atividades, mas ainda necessitam de orientação e supervisão pedagógica.

Já o “Padrão 2”, considerado o nível de atuação consistente e sólida, foi alcançado por apenas 183.983 participantes, o equivalente a 24,2% do total avaliado. Nesse nível, o profissional demonstra autonomia, domínio pedagógico e capacidade de aplicar metodologias e avaliações com fundamentação ética e educacional.

Por outro lado, aproximadamente 266 mil participantes não conseguiram atingir sequer o nível mínimo de proficiência, ficando abaixo de 50% da pontuação exigida.

Matemática apresenta pior desempenho

Entre as áreas avaliadas, Matemática registrou o pior índice de proficiência do país. Apenas 45,9% dos participantes da área alcançaram o desempenho mínimo esperado, enquanto 54,1% ficaram abaixo do nível considerado adequado.

Na sequência aparecem Artes, com 49,9% de proficientes, Letras (60,7%), Pedagogia (62,8%) e Educação Física (69,2%).

As melhores médias foram registradas em Ciências Humanas, que atingiu 80,2% de proficiência, seguida por Ciências, com 78,4%.

Especialistas apontam que os números reforçam dificuldades históricas na formação de professores em áreas consideradas estratégicas, principalmente Matemática e disciplinas ligadas ao raciocínio lógico.

Diferença entre EAD e ensino presencial chama atenção

Outro ponto que gerou preocupação foi o desempenho dos estudantes de cursos de Licenciatura na modalidade de Ensino a Distância (EAD).

De acordo com os dados divulgados pelo MEC, cerca de 53% dos concluintes de cursos EAD não atingiram nível satisfatório de proficiência.

Nos cursos presenciais, esse índice cai para 26%, praticamente metade do registrado na modalidade totalmente online.

O resultado reforçou discussões sobre a qualidade da formação docente oferecida em cursos à distância. Atualmente, o governo federal já iniciou o encerramento gradual de Licenciaturas 100% EAD.

As autoridades estudam novas regras para a modalidade, incluindo a exigência mínima de 50% da carga horária presencial e pelo menos 20% das aulas realizadas ao vivo por videoconferência.

Profissionais experientes tiveram desempenho melhor

A avaliação também mostrou diferenças significativas entre recém-formados e profissionais que já atuam na área da educação.

Entre os chamados participantes do “público geral”, composto principalmente por profissionais já formados e interessados em concursos públicos, o índice de proficiência chegou a 67,5%.

Já entre os estudantes concluintes das Licenciaturas, apenas 57,8% alcançaram o nível mínimo exigido. Isso significa que 42,2% dos futuros professores terminaram a graduação sem atingir o desempenho considerado adequado pelo Inep.

Para especialistas, os números sugerem que a experiência prática em sala de aula pode contribuir significativamente para o desenvolvimento das competências pedagógicas.

Prova poderá ser usada em concursos públicos

A Prova Nacional Docente também foi criada com a proposta de unificar e qualificar processos seletivos para contratação de professores no país.

Segundo o MEC, 1.530 redes de ensino aderiram voluntariamente à iniciativa, incluindo 22 estados, 18 capitais e outros 1.490 municípios.

O ministério estima que o Brasil tenha uma demanda anual de cerca de 118 mil novos professores, considerando aposentadorias, afastamentos e reposições.

Como aproximadamente 492 mil participantes atingiram o nível de proficiência, o governo avalia que o exame possui potencial para suprir a demanda nacional por docentes qualificados.

Novas áreas serão incluídas em 2026

Na primeira edição, a PND avaliou 17 licenciaturas. Em 2026, o número subirá para 21 cursos, com a inclusão das áreas de Teatro, Dança, Ciências Naturais e Letras-Espanhol.

A ampliação busca aumentar o alcance da avaliação e acompanhar a evolução da formação docente no país.

Apesar disso, os resultados da primeira edição já intensificaram o debate sobre a qualidade dos cursos superiores de Licenciatura, especialmente diante dos baixos índices registrados em áreas fundamentais para a educação básica.

Para especialistas em educação, os números revelam um efeito cascata preocupante: universidades com formação deficiente acabam colocando nas salas de aula profissionais que ainda não possuem domínio pleno dos conteúdos e das práticas pedagógicas necessárias.

Com informações do G1

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