O caso recente registrado em Águas de Santa Bárbara, em que uma mãe foi presa após a morte da filha recém-nascida, reacendeu um debate delicado e necessário: a saúde mental da mulher no puerpério. A investigação considera a possibilidade de depressão pós-parto, e a mulher deverá passar por avaliação psiquiátrica.
Para além do caso, especialistas alertam que o período após o nascimento de um bebê é uma das fases de maior vulnerabilidade emocional na vida feminina. Segundo a psicóloga Marília Piza Maurício de Oliveira, o puerpério envolve intensa transformação biológica e psíquica. “Durante a gravidez, estrogênio e progesterona estão em níveis altíssimos. Após o parto, esses hormônios caem drasticamente em menos de 24 horas, afetando neurotransmissores como serotonina e dopamina, que regulam o humor”, explica.
A psicóloga Letícia Latanzio complementa que não se trata apenas de hormônios. “É uma reorganização completa da rotina, das prioridades, do corpo e da própria identidade.” Alterações na tireoide, variações no cortisol, oscilações de ocitocina e prolactina, privação de sono, histórico pessoal ou familiar de transtornos mentais, vulnerabilidade social e falta de rede de apoio também influenciam. “Não existe um único fator. É a combinação entre mudanças biológicas, exaustão e contexto emocional”, ressalta.
SINAIS – Oscilações de humor são comuns nos primeiros dias. O alerta surge quando o sofrimento é intenso, persistente e incapacitante. “Perda de prazer nas atividades, afastamento do bebê, culpa excessiva, sensação de incapacidade, pensamentos recorrentes sobre morte ou sobre machucar a si mesma ou ao bebê e desconexão com a realidade indicam necessidade de intervenção”, afirma Marília. Letícia reforça que é preciso observar intensidade, duração e impacto no funcionamento diário.
A depressão pós-parto pode surgir nas primeiras semanas ou ao longo do primeiro ano do bebê, inclusive em mulheres que planejaram e desejaram a gestação.
PSICOSE PUERPERAL – Mais rara, a psicose puerperal atinge cerca de 1 a 2 mulheres a cada 1.000 partos. Trata-se de um quadro grave, de início abrupto, marcado por perda de contato com a realidade, delírios, alucinações e comportamento desorganizado. “É uma emergência psiquiátrica”, destaca Letícia.
O risco é maior em mulheres com transtorno bipolar, mas pode ocorrer mesmo sem diagnóstico prévio, reafirma Marília.
As especialistas apontam que o tabu ainda é um obstáculo. A idealização da maternidade pode silenciar o sofrimento. Por isso, defendem acolhimento sem julgamentos e acompanhamento psicológico no pré-natal e no pós-parto. Buscar ajuda é um ato de coragem e cuidado.

SINAIS DE ALERTA NO PUERPÉRIO
O que familiares e parceiros não devem ignorar
- Tristeza intensa e persistente por mais de duas semanas
- Choro frequente e sensação constante de desesperança
- Isolamento e afastamento do bebê ou da família
- Falas recorrentes como “não sou uma boa mãe” ou “meu filho estaria melhor sem mim”
- Culpa excessiva e sentimento de incapacidade
- Irritabilidade extrema ou raiva desproporcional
- Ansiedade paralisante ou crises frequentes
- Alterações graves no sono (insônia total mesmo quando o bebê dorme)
- Perda de interesse por atividades que antes traziam prazer
- Pensamentos sobre morte, desaparecer ou machucar a si mesma ou ao bebê
- Confusão mental, falas desconexas, delírios ou relato de ouvir vozes
- Em caso de suspeita, procure a Unidade Básica de Saúde, CAPS ou atendimento psiquiátrico.
Em situação de emergência, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.

