CidadeCulturaDestaqueHistoriador avareense lança livro sobre como a Igreja ajudou a moldar o Brasil

Em “A República das Batinas”, Jonatan Rafael de Souza Mello revela bastidores da relação entre religião, política e identidade nacional e mostra como ecos desse passado ainda moldam o presente
Reportagem17 de abril de 20268 min

A história, quando bem contada, deixa de ser passado e vira espelho. É exatamente essa a proposta de A República das Batinas, obra do historiador Jonatan Rafael de Souza Mello, lançada no dia 16 de abril e que mergulha nas engrenagens pouco exploradas da relação entre Igreja Católica e Estado durante a Primeira República (1889–1930).

“Eu entrei na faculdade fascinado pela Segunda Guerra Mundial, mas no meio do curso migrei para a História das Religiões”, conta. A virada veio após uma provocação acadêmica: escrever sobre a Primeira República. O resultado inicial não foi promissor, mas acendeu uma inquietação. “Aquilo me chamou atenção. As relações entre política e religião eram muito mais complexas do que eu imaginava.”

O que começou como curiosidade virou hipótese e depois, investigação profunda. Ao longo da pesquisa, Jonatan encontrou uma Igreja muito diferente da imagem passiva que costuma aparecer nos livros didáticos. “Eu constatei o quão habilidosa a Igreja Católica era em suas manobras políticas e sociais”, afirma.

Essa habilidade foi essencial em um momento de ruptura: a separação entre Igreja e Estado. Se, num primeiro instante, houve perda de poder e temor diante de correntes como o positivismo e o liberalismo, o cenário logo mudou. “A Igreja passa por um momento de aflição, mas depois aumenta substancialmente sua influência, seu patrimônio humano e material”, explica.

TÓPICOS SENSÍVEIS – Mas nem tudo é estratégia e expansão. Há também silêncios e eles dizem muito. Um dos pontos mais delicados abordados no livro é a postura da Igreja em relação à população negra após a abolição. “Eles entendiam a escravidão como uma abominação, mas não se reconheciam como partícipes dessa barbaridade”, diz o autor. “A fala da Igreja sobre o histórico escravocrata é muito acanhada, e sua percepção sobre a população negra recém-liberta é praticamente inexistente.”

É nesse cenário que surge um dos conceitos centrais da obra: o “nacionalismo cristão”. Uma ideia poderosa e excludente. “Para a Igreja, ser patriota era ser essencialmente católico. Ao definir isso, ela também definia quem estava fora”, resume Jonatan. “Quem não era católico poderia ser visto como opositor não só da Igreja, mas da própria nação.”

Essa construção simbólica ajudou a moldar a ideia de cidadania no Brasil e, segundo o autor, seus reflexos ainda estão por toda parte. “A noção de que o ‘cidadão de bem’ é também um cidadão cristão nasce nesse período”, afirma. “E até hoje vemos ecos disso no discurso popular.”

A pesquisa também dialoga com autores clássicos, como José Murilo de Carvalho, citado como referência para entender a fragilidade da participação popular no início da República. Um país que deixava de ser Império, mas ainda não sabia exatamente o que significava ser cidadão.

DEDICAÇÃO – Chegar a essas conclusões, no entanto, exigiu mais do que leitura. Exigiu insistência. Em um país onde a preservação histórica é falha, o acesso às fontes foi um dos maiores desafios. “Minha maior dificuldade foi encontrar os documentos”, relata. A virada veio com a ajuda de contatos acadêmicos e, principalmente, de um personagem improvável: “Um padre de mais de 90 anos me recebeu em casa, abriu seu acervo pessoal e me doou documentos. Sem isso, a pesquisa não seria possível.”

Foram três anos de pesquisa, atravessados pela pandemia, e mais dois até a publicação. O resultado é uma obra que busca equilíbrio, crítica, mas ancorada em método. “Procurei ser o mais isento possível, deixando os documentos me guiarem”, diz. “O resultado foi até diferente do que eu imaginava.”

Mais do que revisitar o passado, o livro propõe um debate urgente. “A historiografia brasileira ainda dá pouca atenção às relações religiosas na política”, avalia. “Existe muita produção sobre ideologias políticas, mas esse cruzamento com a religião ainda é pouco explorado.”

E talvez seja justamente aí que A República das Batinas encontra sua força: ao mostrar que entender o Brasil exige olhar para além das estruturas formais de poder e reconhecer a influência silenciosa, persistente e, muitas vezes, invisível da religião na construção da sociedade.

Em seu texto, o autor amplia essa conversa. “Vou fazer paralelos com a nossa realidade atual e abordar temas que surgiram durante a pesquisa”, adianta. Entre eles, a visão histórica da Igreja sobre a população negra e até sua influência na construção de direitos trabalhistas.

Porque, como o próprio livro sugere, algumas ideias não desaparecem. Elas apenas se reinventam e continuam, de alguma forma, governando.

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