CidadeCulturaDestaqueGarimpo da Arte Avareense: um acervo vivo da cultura local

Programa reúne artistas, pesquisadores e personagens da cidade em entrevistas cheias de histórias que ajudam a preservar a memória avareense
Reportagem17 de julho de 202626 min

Em tempos de conteúdos rápidos e superficiais, há um espaço em Avaré que segue outro caminho: o da conversa sem pressa, da boa história e da valorização de quem constrói a cultura da cidade.

Celebrando seu primeiro quinquênio e com mais de 200 programas no ar, o Garimpo da Arte Avareense se consolidou como um ponto de encontro entre artistas, personalidades, pesquisadores e o público que gosta de conhecer mais sobre a identidade cultural do município.

Transmitido todas as terças-feiras, às 20 horas, pela Rádio Cidadania 104,9 FM, o programa nasceu durante a pandemia e, desde então, vem revelando talentos, registrando memórias e mostrando que nosso município possui um patrimônio cultural muito maior do que muita gente imagina.

O NASCIMENTO DOS GARIMPEIROS

A ideia surgiu de forma espontânea. Enquanto produziam um documentário envolvendo a Rádio Cidadania, Maurício “Maú” Bruno e Amauri Albuquerque receberam um convite para participar de um programa da emissora. A experiência despertou uma pergunta simples: “Por que não criar um programa próprio?”. A resposta veio em forma de um projeto que, inicialmente, tinha como objetivo divulgar músicos da cidade, mas que rapidamente ampliou seus horizontes.

“A princípio era para falar sobre artistas locais tocando suas músicas. Avaré é uma mina de música e músicos.”, resume Maú.

O nome também traduz perfeitamente a proposta. Assim como um garimpeiro procura pedras preciosas escondidas, os apresentadores buscam pessoas que tenham algo valioso para compartilhar, seja arte, conhecimento, curiosidades ou experiências de vida. “A palavra ‘garimpo’ já tem essa conotação de procurar algo de valor. É justamente isso que fazemos.”

CLÓVIS GUERRA

Entre as principais referências do Garimpo da Arte Avareense está um nome que marcou gerações de ouvintes em Avaré: Clóvis Guerra, o saudoso Clovinho. Para Maurício, o comunicador foi uma verdadeira escola de rádio. “O principal foi o Clovinho, da Rádio Avaré. Ele tinha muito conhecimento do que fazia e um jogo de cintura impressionante para lidar com o ao vivo e todas as intercorrências que aconteciam durante a programação.” Além dele, os apresentadores também citam os tradicionais programas de entrevistas da TV Cultura como fonte de inspiração para construir um formato leve, curioso e baseado em boas conversas.

PARA ALÉM DOS ACORDES

O que começou focado em cantores, bandas e compositores logo passou a abrir espaço para diferentes manifestações culturais.

Pela bancada já passaram cartunistas, atores, cineastas, historiadores, professores, tatuadores, produtores culturais, palhaços, donos de bares que incentivam música ao vivo, gestores públicos e tantos outros, que fazem parte do nosso cenário cultural.

Essa diversidade faz com que cada episódio seja diferente do anterior. Em uma semana o assunto pode ser teatro; na outra, fotografia, literatura, cinema, história da cidade ou curiosidades.

CULTURA E MUITAS RISADAS

O caráter é informativo, mas o clima do programa está longe da formalidade.

Os próprios criadores definem cada episódio como uma espécie de “conversa de boteco”, mas sem comida e bebida. O bom humor é uma das marcas registradas da atração e rende situações inusitadas nos bastidores.

Entre uma pausa da programação da rádio e outra, já aconteceram brincadeiras, piadas internas, momentos politicamente incorretos e até uma inesperada invasão de um grupo religioso ao estúdio durante uma transmissão. “Nos bastidores já saiu palavrão, piadas… o politicamente incorreto corre solto. Mas também já tivemos uma invasão ao vivo de aleluias no estúdio.”, conta Maú.

Essa leveza ajuda a aproximar o público e transforma entrevistas em conversas naturais, onde histórias emocionantes aparecem de forma espontânea.

O PODER DA ARTE

Depois de mais de duas centenas de entrevistas, é difícil escolher apenas uma marcante.

Os apresentadores lembram com carinho de convidados que infelizmente partiram pouco tempo depois de participarem do programa, como Renner Parize e Caio Amôedo, e também lamentam entrevistas que não conseguiram realizar com importantes nomes da cultura local.

Mas algumas histórias seguem vivas justamente pelo impacto que causaram. Uma delas foi a de um entrevistado que contou como o teatro mudou completamente o rumo de sua vida. “Ele contou que o teatro o tirou de um caminho, digamos, não muito certo. Por isso temos que valorizar sempre a arte e a educação.”

São relatos que reforçam uma convicção compartilhada pelos criadores do Garimpo: investir em cultura e educação nunca é um gasto, mas um investimento na transformação das pessoas.

VITRINE DA POTÊNCIA CULTURAL

Para quem acompanha a cena cultural há décadas, Avaré já viveu períodos de intensa efervescência, com festivais de música, fotografia, literatura, cinema, teatro, exposições, orquestras e apresentações em espaços públicos.

Embora parte desse movimento tenha perdido força ao longo dos anos, especialmente após a pandemia, os entrevistadores enxergam uma retomada impulsionada por iniciativas públicas, projetos financiados por leis de incentivo e ações independentes promovidas por artistas, bares, escolas e entidades.

“Hoje há vários eventos, sejam promovidos pelo poder público, pela iniciativa privada ou por leis de incentivo. Mas sempre queremos mais.”

Para eles, valorizar os artistas locais é fortalecer a economia criativa e preservar a identidade cultural da cidade. “É preciso mostrar esses artistas para que possam viver da própria arte. Além disso, são pessoas que moram aqui, movimentam a economia e deixam sua contribuição para Avaré.”

Recentemente, o projeto ganhou mais um braço com a série “História de Nossa Gente”, publicada aos domingos nas redes sociais, trazendo vídeos curtos sobre personagens e curiosidades que fazem parte da história de Avaré.

ENTREVISTAS DOS SONHOS

Maurício admite que ainda existe uma lista de nomes que gostaria de receber no Garimpo da Arte Avareense. Alguns esbarraram na incompatibilidade de agendas, como o advogado e músico Juca Novaes, enquanto outros seguem como um desejo antigo, caso do escritor e novelista avareense Walter Negrão.

Ele também relembra de grandes pessoas nos deixaram, como o próprio avô que não teve a oportunidade de conhecer, além de personalidades que fizeram ou contaram nossa história como Maneco Dionísio, Pimpinela, Professor Franzolin e Tininho Negrão.

ONDE ACOMPANHAR

Quem ainda não conhece o projeto pode acompanhar o Garimpo da Arte Avareense todas as terças-feiras, a partir das 20 horas, pela Rádio Cidadania 104,9 FM. As entrevistas também são transmitidas ao vivo pelo Instagram @garimpodaarteavareense, ficam disponíveis posteriormente no YouTube @GarimpodaArteAvareense-gaa.

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