Há quem entre em uma academia para mudar o corpo. Outros buscam saúde, autoestima ou qualidade de vida. Mas, para o avareense Lucas Ignatios Ribas de Andrade, a musculação sempre foi muito mais do que isso. Foi um sonho.
Um sonho que começou aos 11 anos de idade, inspirado pelos filmes de ação dos anos 80, quando nomes como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger transformavam músculos em símbolo de força, coragem e determinação. “Eu olhava aqueles filmes e pensava: um dia quero ser um daqueles caras.”
Quando começou a treinar, incentivado pelo tio materno, Jorge Ignatios Neto, ele queria ser fisiculturista. Foram anos aprendendo, estudando e moldando o corpo para um objetivo que parecia distante.
Em 2009 veio a primeira grande conquista: o vice-campeonato paulista de fisiculturismo, na categoria amador até 90 kg, em Suzano.
Mais do que um troféu, aquela competição lhe ensinou uma lição que carregaria para sempre. “Foi ali que aprendi o verdadeiro significado de disciplina, de controle mental e emocional. Entendi que não existem atalhos.” Mas a vida reserva caminhos inesperados.

MUDANÇA DE DIREÇÃO – Passado um tempo, morando em São Paulo, onde havia montado um estúdio de treinamento personalizado, houve uma mudança. Por meio de um amigo, conheceu duas modalidades ainda pouco conhecidas pelo grande público: o Powerlifting e o Strongman.
No início, era apenas curiosidade. A curiosidade se tornou paixão e desde então, ele vem construindo, dia após dia, o físico e a mente que o levará a longevidade.
O RETORNO PARA CASA – De volta a terra natal, Lucas montou sua academia, no conceito old school: poucas máquinas, muito treino, muito trabalho, que pode ser acompanhado pelo Instagram.
Hoje, o espaço é especializado em modalidades de força, preparado para desenvolver atletas capazes de alcançar seu máximo potencial.
COMPETIÇÕES – Depois de anos dedicados ao trabalho como treinador, Lucas decidiu voltar a competir em 2025 e no ano seguinte ingressou oficialmente no calendário de Powerlifting. Na primeira competição oficial, realizada em Apiaí, chegou sem qualquer favoritismo.
Ao redor estavam atletas experientes, conhecidos nacionalmente. Mesmo assim, o avareense surpreendeu.
Foi campeão no supino e vice-campeão no levantamento terra. “Eu não acreditava que tinha chegado a minha vez.” As palavras ainda carregam emoção.
“Tenho 42 anos, sou categoria Master e competir com atletas mais jovens tem um peso muito grande. Quando trouxe aqueles troféus para casa, significou muito para mim.” Desde então, as medalhas começaram a se multiplicar.
Recentemente, em Socorro, num evento considerado de alto nível técnico, voltou ao pódio enfrentando atletas de elite. Em todas essas competições, representou sozinho a cidade de Avaré.

MUITO ALÉM DA FORÇA – Quem vê Lucas levantando 222 quilos no levantamento terra ou colocando 156 quilos no supino dificilmente imagina que sua maior preocupação hoje não é com seus próprios resultados. São seus atletas.
Ele divide a rotina entre os próprios treinos e a preparação de pessoas que desejam competir. Entre eles estão Ana e Michel, de Apiaí. Como vivem em outra cidade, o acompanhamento acontece à distância.
“O desafio maior hoje são meus atletas. Meu treinador manda em mim e eu apenas executo. Já com eles preciso analisar vídeos, corrigir movimentos, encontrar estratégias. É um trabalho constante.”
ENVELHECER FORTE – Enquanto muitos atletas falam em aposentadoria, Lucas faz planos para daqui a quase duas décadas. Seu maior objetivo ainda não foi conquistado. “Quero competir depois dos 60 anos.” Não é apenas uma meta esportiva, é um projeto de vida. E como todo menino que cresceu assistindo Dragon Ball, uma de suas inspirações é Vegeta, personagem que carrega no braço como um lembrete de que nada é de graça, que é preciso lutar para conquistar seu espaço.
GRATIDÃO – Lucas nunca teve grandes patrocinadores. Mas costuma dizer que possui uma “mãetrocinadora”. É a mãe, Célia Regina Ignatios de Andrade quem, sempre que sabe de uma competição, estimula. Além dela, também o pai Albino Ribas de Andrade e o irmão Chico, sempre grandes apoiadores e alicerces de suas conquistas. Também aproveita para agradecer aos treinadores Gabriel Barra (atual treinador de Powerlifting ) e Rodolfo Gil (treinador de Strongman).

CONSELHO – Depois de mais de 30 anos de musculação, Lucas acredita que muitas pessoas desistem antes mesmo de perceber os resultados. “Tenha paciência.” Ele reforça que não é preciso treinar todos os dias. Três vezes por semana já fazem diferença. “Faça menos, mas faça melhor.”
Também faz questão de derrubar um mito. “Nunca é tarde para começar.” Segundo ele, existem exercícios até para pessoas acamadas. “Não existe idade mínima nem máxima para a musculação. O único requisito é querer começar.”
O SONHO CONTINUA – Lucas ainda quer quebrar recordes. Quer levantar 170 quilos no supino sem equipamentos de apoio. Quer alcançar 256 quilos no levantamento terra. Quer formar novos campeões. Quer ser reconhecido como treinador. Mas, acima de tudo, quer continuar sendo exemplo.
Porque, para Lucas, vencer nunca significou apenas subir ao lugar mais alto do pódio. Significa acordar todos os dias e continuar fazendo aquilo que escolheu há mais de três décadas. Com disciplina. Com gratidão.
E com a certeza de que a maior força do ser humano não está no peso que consegue levantar, mas na capacidade de nunca desistir.
(Texto especial de Laura Franzolin para A Comarca)

